terça-feira, 10 de janeiro de 2012

SARAMAGO, José. Clarabóia. 2011.

No natal do ano que passou, vivi situações curiosas com homônimos. Em um amigo oculto, meu namorado sorteou uma amiga que está grávida de uma Clara. Neste mesmo amigo oculto, a futura mamãe se emocionou ao revelar que eu, Clara, era a sua sorteada. Já numa segunda confraternização, foi com empolgação que dei a dica: “a pessoa que eu tirei tem comigo uma relação homônima!”. Podiam-se ouvir os grilos, acho que ninguém viu muita graça... Mas prontamente a menina que eu tirei se apresentou: Clara.

Espero não ter vos cansado na leitura, pois, na verdade, o homônimo que aqui me interessa é outro...

Capa do lançamento da
Companhia das Letras.
Não sei se influenciou muito a minha sede por ler um romance, mas devorei a última obra de Saramago: Clarabóia. Última a ser publicada, mas das primeiras a serem escritas. Quando somava trinta e poucos anos, o escritor português enviou a obra para uma editora de Lisboa, mas ela acabou esquecida numa gaveta... Resgatada já na década de 1980, o autor preferiu não publicá-la em vida e coube à família divulgá-la agora.

Sobre as tramas cotidianas de seis apartamentos de um pequeno prédio de uma região simples de Lisboa, Saramago tece narrativas instigantes. Trata com profundidade dos personagens. Da dureza do jovem estudante que chega para alugar um quarto, do rancor da espanhola que vive arrependida de casar-se com um português, das lições de vida do sapateiro que vive serenamente com a esposa, das contradições da moça sedutora que vive às custas do amante, da tensão carnal do casal que perdeu a única filha e se despreza...

O Portugal retratado nas entrelinhas da rede tecida é o do ano de 1952, quando o regime ditatorial de Salazar completava duas décadas. Ademais, a década que se encontrava no início ficou marcada por mudanças culturais no país e no mundo com a chegada da televisão, popularização dos automóveis, era de ouro do cinema... É, então, nesse ínterim que emergem o prazer, a dor, a liberdade, as forças e fraquezas, o sexo, a vergonha, a esperança, a autoridade... E quando tudo parecia encerrar-se como um elogio ao amor, o leitor se surpreende.

Nada de parágrafos muito longos
e pontuações confusas
Do mesmo autor só havia tentado ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas não tive disposição suficiente e não conclui. Fora isso havia tido contato com o Ensaio Sobre a Cegueira apenas em apresentação teatral e cinematográfica. Porém, posso dizer que me surpreendi com a leitura de Clarabóia. Esperava algo moroso com pontuação confusa e longos parágrafos, mas o que encontrei foi uma leitura fluida e cativante.


No mais, foi interessante ouvir me perguntarem sobre a possível relação entre o nome deste blog com o da obra... Há sim uma relação. Homônima, apenas, mas com a qual me simpatizei. Ler este livro em pleno clima de renovação de ano novo permitiu identificações e reflexões proveitosas... e saborosas. 

4 comentários:

  1. Clara, linda sua empolgação com o Saramago. Este livro deve ser legal, estive em Lisboa recentemente e aquelas ruas, a cidade baixa, os cafés, os becos, tudo, os costumes, como há entre nós uma pertença cultural ainda, para muitos, a ser descoberta. Espero que possamos ir a Portugal juntos, lá é lindo e surpreende!
    B

    ResponderExcluir
  2. Clara, vc está ficando realmente boa nisso!! Conte mais depois sobre o motivo de vc ter escolhido esse nome pro blog! Beijo amável!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que que eu posso dizeR? Que Amo a mi hermana?? =) Tá massa , Crara! É bonito mesmo te ver desfrutando de mundos tão diversos, lançando-te na fantasia da leitura...Quem segue por essa estrada se mantêm assim...sempre jovem, ativa e linda.. ^^ Besuuuuus!!!!

      Excluir