segunda-feira, 29 de outubro de 2012

As máquinas e o amor aos livros

“A máquina não é senão uma nova ferramenta inventada pelo homem, que a maneja como quer.”
                                                                                       Rubens Borba de Moraes


Hoje, os incunábulos -primeiras obras impressas a partir da invenção da tipografia, por volta de 1445, até o ano de 1500-  , obras de indiscutível raridade, são alvo de desejo de qualquer amante de livros. Porém, os primeiros impressos foram renegados por contemporâneos à sua origem.

Muitos que assistiram o nascimento da tipografia viram com desconfiança a impressão. Consideravam a máquina algo “vulgar, imperfeita e menos nobre que a mão do homem” (MORAES, 2005, p.197). Tal preconceito pode ser comparado à crítica mais recente em relação à produção em massa de livros. Hoje, não são mais os incunábulos alvo de descrédito, pelo contrário, o que existe são “bibliófilos que desprezam os livros modernos, impressos mecanicamente aos milhares. Para esses amadores, só tem valor artístico o livro impresso à mão e tirado a poucos exemplares” (Idem, ibidem, p.196).

Tais receios e desconfianças podem ser analisados à luz da célebre frase de Padre Claude Frollo no romance de Victor Hugo[1]: Ceci tuera cela. Isto matará aquilo, foi o que disse a personagem no século XV, após a invenção da tipografia, indicando, como analisa Umberto Eco, que “o livro vai matar a catedral, o alfabeto matar as imagens e incentivar a informação supérflua” (ECO, 2003, p.3). Talvez seja esse medo do novo, essa sensação de ameaça ao antigo e tradicional o que motivou e motiva tais  preconceitos.

Porém, apesar dessas críticas que circulavam os incunábulos e que podem ser vistas como influência no caráter longo e complexo da transição do manuscrito ao impresso (afinal, até o século XVI não era incomum a feitura de manuscritos), há sinais que indicam que a bibliofilia não rejeitou de todo a essência artística da tipografia. A arte tipográfica foi, inclusive, vista como uma arte hermética, para iniciados, que deveriam prometer segredo sob juramento.

É digno de nota também o primeiro incunábulo sobre bibliofilia, Philobiblon,de Ricardo de Bury, impresso em 1473. Foi elaborado ainda em forma de pergaminho, manuscrito em 1345, mesmo ano da morte de seu autor, beneditino inglês apaixonado por livros que fez questão de deixar registrada a maneira como deveriam dispor de sua notável biblioteca após sua morte. Leitura fundamental aos bibliófilos, trata de cuidados essenciais a serem dispensados aos livros, incluindo como estimá-los e até mesmo como compartilhá-los com estudantes. Sua obra está hoje também disponível em versão bilíngüe (latim e português) Philobiblon ou o amigo do livro, pela Ateliê Editorial, com tradução e notas de Marcelo Cid.

Percebe-se que não foi pacífica a aceitação da tipografia pela bibliofilia, assim como ainda hoje não é unânime a idéia de que “industrializar não é enfeiar” (MORAES, 2005, p.196).



Texto escrito tendo como estímulo trabalhos desenvolvidos na disciplina História do Livro e das Bibliotecas, cursada na UnB em 2010.

FONTES:
ECO, Umberto. Muito Além da Internet. Palestra na Biblioteca de Alexandria, no Egito, Dez/2005. Disponível no sítio: http://www.ofaj.com.br/textos_conteudo.php?cod=16 . Acessado em: 23 de julho de 2010.
MORAES, Rubens Borba. O Bibliófilo Aprendiz. 4ª edição. Brasília, DF: Briquet de Lemos/ Livros: Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.

[1] Notre Dame de Paris, romance de Victor Hugo que também ficou conhecido como O Corcunda de Notre Dame, publicado em 1831.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

V Encontro de Capoeira Angola da Chapada dos Veadeiros


V Encontro de Capoeira Angola da Chapada dos Veadeiros



Foi lá em São Jorge,
que isso aconteceu.
Foi com Mestre Cobra Mansa
e Moraes, que é mestre seu.

Boas oficinas,
a galera compareceu.
Tanto que ficou lotado!
Vou te contar camará meu...

Mas deu pra aproveitar!
E muita coisa aprender...
Mestre Cobrinha a sorrir,
provou seu vício em se mover.

E também contou história,
que foi do circo à polícia!
E do Ngolo, claro,
ele também trouxe notícia...

Mestre Moraes falou, falou
Espetou e fez doer
o ego de muita gente.
Depois conto pra voismicê...

E cantou, cantou bonito!
Da capoeiragem baiana,
que carrega no seu rito
coisa indígena, branca e africana.

Na cabocla ele não bate,
o negro nagô não fede...
Mostra que toma cuidado
com os valores que repete.

E foi por um triz,
perdi a roda final...
Com aqueles dois mestres juntos,
acho que foi sensacional...

Esse foi um fim de semana,
e este um relato dessa viagem,
em que meu peito sempre batia,
o Maranhão, nossa linhagem.

Clara Ramthum do Amaral
(Relato de participação no V Encontro de Capoeira Angola da Chapada dos Veadeiros, realizado de 27/07 a 29/07/2012, no XII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em São jorge, GO)

domingo, 13 de maio de 2012

LIBAR, Marcio. O Pregoeiro.


Foto de Lincon Zarbietti, divulgada no blog Holofote Virtual.
No início, o nome do espetáculo das 22h não ficava na cabeça, sempre, tudo que eu podia lembrar sobre o título do “espetáculo das 22h” pelo que eu tinha passado o olho na programação era: não-sei-o-que-lá-eiro.

Mas, resistimos ao frio de uma hora na fila de espera mais três quartos de hora na fila de entrada, pra ver uma peça da qual tinha ouvido apenas uma indicação do meio-irmão do namorado de uma amiga: “muito boa!”. Eu nem conhecia lá muito bem o gosto desse conhecido, mas não é que valeu mesmo a pena?

Do conteúdo do espetáculo, é melhor não falar muito. Até porque você mesmo pode achar e se surpreender com vídeos e registros outros na tal da web, e o melhor, com autorização do artista, que não cedeu à parte mesquinha dos direitos autorais. Fato é que, assumo, no início do espetáculo, tive medo do texto cair nos tais lugares-comuns... Mas a queda que rolou não foi essa, e surpreendeu, e muito.

A riqueza teórica era de dar inveja a muita dissertação e tese por aí, não duvido inclusive que o trabalho tenha se originado de alguma apresentação acadêmica, como foi o caso de outra excelente apresentação que vi recentemente na mesma sala de brasília[1].

Porém, o que me fisgou de vez mesmo foi a sinceridade colocada em cena. Se aquele brilho nos olhos não era sincero, se aquela paixão pela arte que estava sendo alimentanda não era verdadeira, a atuação, no mínimo, teria sido inacreditável.

A sinceridade que me encantou foi a daquele que assume a humildade depois de uma queda... Não uma humildade covarde novelesca, uma humildade de quem se (re)conhece, de quem se (re)encontra, sabe quem é e sabe que pode e deve ser quem realmente é. Humildade que remonta às origens etimológicas da palavra, humus, da terra...

Soa aqui um comentário um tanto apaixonado, não? Como apaixonada foi a pregação que acabei de assistir, daí entendi o nome pra não mais esquecer, p r e g o e i r o .

Enfim, se me prolongar, estraga. Vou é comer o último docinho da festa de aniversário que fui ontem e guardei na geladeira, sabe aquele prazer infantil? Como o de uma criança que acabou de voltar do circo encantado.


[1] UMBIGÜIDADES, de Iami Rebouças, parte prática da sua dissertação de mestrado em Artes Cênicas pela UFBA. Espetáculo que já brilha há mais de uma década e passou na Sala Plínio Marcos, na FUNARTE-DF, mês passado, com um público muito menor (infelizmente) do que a peça do FestClown que hoje assisti.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Você parece indefesa


Tenho passado por oscilações perturbadoras entre insegurança e orgulho, desistência e resistência. Coisa que fases novas e desafios que nos tiram da nossa zona de conforto provocam na gente.

Hoje uma coisa inusitada aconteceu e me deu certa força misteriosa. Às vezes, o místico se desperta onde menos se imagina...

A caminho de mais uma noite de plantão, parei para comprar uma água na conveniência de um posto de gasolina nessa cidade menosprezada da periferia. À porta da loja, estava o vendedor uniformizado e ao seu lado um homem de trinta e poucos anos aparentemente embriagado. Aliás, não seria arrogância dizer que ele estava certamente embriagado. Este homem não estava mal vestido, não parecia ser morador de rua, nem estava agressivo, só o que justificava o clichê “bêbado” era o olhar perdido e as movimentações cambaleantes. Ele simplesmente estava lá, sentado com certa cara de frustração, talvez seu time tenha perdido num desses jogos de domingo à tarde...

Rapidamente entrei, comprei a água e me dirigi ao carro. Nesta movimentação, o bêbado me surpreendeu com uma frase repentina que agora ecoa na minha cabeça:

“Você parece indefesa, mas não é.”

Surpresa, eu só pude abrir um sorriso e concordar: “Não, não sou.” E assim segui meu caminho e ele me acompanhou com o olhar até eu entrar no carro. 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cri... Cri... Cri...

É assim que fica o blog de uma recém mestranda que está tentando se adaptar ao novo ritmo.

terça-feira, 6 de março de 2012

I Oficina de corridos NZambi Brasília - um relato


Eu vou contar uma história
do que ontem aconteceu
Gente boa reunida
só pode dar no que deu...

A oficina foi um sucesso!
Muita ideia na cabeça
Deixou ladainha, corrido e verso
pra que dela não se esqueça.

Primeiro uma discussão
deu lembrança a muito nome
Falou-se em Rosa Palmeirão
Nêga Didi e 12 hôme

Escrava Xica da Silva
Maria Bonita do sertão
Também Teresa e Idalina
e Maria Aragão.

No canto foi o nome Maria
uma unanimidade
da Penha entrou na cantoria,
muita mulher de verdade!

Também a própria angoleira
em suas faces foi cantada
da coreira à marisqueira
da menina à namorada.

Até uma figura faceira
nessa noite foi criada
No berimbau: Maria Pereira,
tocadora arretada!

Mas nem só da oralidade
surgiu tanta coisa boa
inspirando criatividade
os livros não vieram à toa...

Começou então a homenagem
À mulher, à brasileira
nutrindo a capoeiragem
vibrando a lilás bandeira!



Registro da primeira oficina de corridos da Associação Cultural de Capoeira Angola N'Zambi  ACCAZ/Brasília, na semana "Dona Maria como vai você?" em homenagem ao dia das mulheres