“A máquina não é senão uma nova ferramenta inventada pelo homem, que a maneja como quer.”
Rubens Borba de Moraes
Hoje, os incunábulos -primeiras obras impressas a partir da invenção da tipografia, por volta de 1445, até o ano de 1500- , obras de indiscutível raridade, são alvo de desejo de qualquer amante de livros. Porém, os primeiros impressos foram renegados por contemporâneos à sua origem.
Muitos que assistiram o
nascimento da tipografia viram com desconfiança a impressão.
Consideravam a máquina algo “vulgar, imperfeita e menos nobre que a mão
do homem” (MORAES, 2005, p.197). Tal preconceito pode ser comparado à
crítica mais recente em relação à produção em massa de livros. Hoje, não
são mais os incunábulos alvo de descrédito, pelo contrário, o que
existe são “bibliófilos que desprezam os livros modernos, impressos
mecanicamente aos milhares. Para esses amadores, só tem valor artístico o
livro impresso à mão e tirado a poucos exemplares” (Idem, ibidem,
p.196).
Tais receios e desconfianças podem ser analisados à luz da célebre frase de Padre Claude Frollo no romance de Victor Hugo[1]: Ceci tuera cela.
Isto matará aquilo, foi o que disse a personagem no século XV, após a
invenção da tipografia, indicando, como analisa Umberto Eco, que “o
livro vai matar a catedral, o alfabeto matar as imagens e incentivar a
informação supérflua” (ECO, 2003, p.3). Talvez seja esse medo do novo,
essa sensação de ameaça ao antigo e tradicional o que motivou e motiva
tais preconceitos.
Porém, apesar dessas críticas que circulavam
os incunábulos e que podem ser vistas como influência no caráter longo e
complexo da transição do manuscrito ao impresso (afinal, até o século
XVI não era incomum a feitura de manuscritos), há sinais que indicam que
a bibliofilia não rejeitou de todo a essência artística da tipografia. A
arte tipográfica foi, inclusive, vista como uma arte hermética, para
iniciados, que deveriam prometer segredo sob juramento.
É digno de nota também o primeiro incunábulo sobre bibliofilia, Philobiblon,de
Ricardo de Bury, impresso em 1473. Foi elaborado ainda em forma de
pergaminho, manuscrito em 1345, mesmo ano da morte de seu autor,
beneditino inglês apaixonado por livros que fez questão de deixar
registrada a maneira como deveriam dispor de sua notável biblioteca após
sua morte. Leitura fundamental aos bibliófilos, trata de cuidados
essenciais a serem dispensados aos livros, incluindo como estimá-los e
até mesmo como compartilhá-los com estudantes. Sua obra está hoje também
disponível em versão bilíngüe (latim e português) Philobiblon ou o amigo do livro, pela Ateliê Editorial, com tradução e notas de Marcelo Cid.
Percebe-se que não foi pacífica a aceitação
da tipografia pela bibliofilia, assim como ainda hoje não é unânime a
idéia de que “industrializar não é enfeiar” (MORAES, 2005, p.196).
Texto escrito tendo como estímulo trabalhos desenvolvidos na disciplina História do Livro e das Bibliotecas, cursada na UnB em 2010.
FONTES:
ECO, Umberto. Muito Além da Internet. Palestra na Biblioteca de Alexandria, no Egito, Dez/2005. Disponível no sítio: http://www.ofaj.com.br/textos_conteudo.php?cod=16 . Acessado em: 23 de julho de 2010.MORAES, Rubens Borba. O Bibliófilo Aprendiz. 4ª edição. Brasília, DF: Briquet de Lemos/ Livros: Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.
[1] Notre Dame de Paris, romance de Victor Hugo que também ficou conhecido como O Corcunda de Notre Dame, publicado em 1831.
eu gostei do texto..não sei por que ainda não tinha lido...legal mesmo...fiz essa matéria com a dulce, HLB..uma pena que ela seja optativa..sua obrigatoriedade ia fazer o nível das aulas e das discussões subir...isso me tem feito pensar sobre as outras formas de biblifilia, isto é, que vai para além dos detentores de livros...outros amantes, artesãos, bibliotecários, estudiosos, ilustradores, encadernadores, enfim...parabéns!
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