segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Filosofias de hospital

         
         Era um dia normal, ou melhor, uma noite normal de plantão. A falta de médicos, enfermeiros desestimulados, pacientes nervosos, motoqueiros acidentados (em sua maioria, imprudentes), pacientes baleados e inúmeras reclamações de dores generalizadas.
O caso do baleado, não foi algo tão rotineiro assim... O paciente em questão foi levado pelo seu professor de capoeira, que recebeu o pedido de ajuda de seu aluno de 14 anos na porta de sua casa baleado no braço. Nesse registro, mais um elemento extracotidiano, o garoto só tinha o nome do pai. Em geral, por volta de dois terços das pessoas que registro só tem o nome da mãe. Enfim, como ia dizendo, tudo corria normalmente...

       Estávamos na labuta, eu e meu colega, M.
É um pouco mais novo que eu, pouca diferença, mas já suficiente para ele não se identificar com a geração da doce novelinha Carrossel. Cursa enfermagem e está se envolvendo em projetos de pesquisa na faculdade. Um rapaz bem humorado e disposto.
Eis que surgiram pensamentos que senti necessidade de registrar...

          Primeiro, Hipócrates.
M. apresentou-me uma idéia interessante deste considerado “pai da medicina”. O corpo tem total capacidade de auto cura. O que lhe falta é apenas tempo, oportunidade. Sempre admirei a complexidade do corpo humano, mas nunca tinha olhado por esse ângulo... O corpo sozinho curaria o ferimento à bala do braço do garoto, ele produz os elementos necessários... Mas não tem o tempo suficiente...

        Outra coisa interessante foi a sensibilidade no reconhecimento de que não se lê apenas palavras... As imagens também devem ser lidas. Não que isso tenha sido algo inteiramente novo pra mim, pode parecer mesmo óbvio. Mas achei curiosa a percepção disso na área da saúde. Foi legal ouvir o cuidado de M na leitura das feridas ilustradas no seu livro de enfermagem. As cores, a aparente textura, a tudo os olhos cuidadosos dos profissionais da saúde devem estar atentos. Olhos que inclusive brilham quando percebem nessa leitura que as coisas estão correndo bem e que a cura se aproxima.

          Por fim... Quando já falávamos na vida acadêmica e na disputa de egos que parece a ela inerente, veio a questão das gerações e da imortalidade.
A gana pelo reconhecimento por parte dos pesquisadores está ligada, ao nosso olhar, à única possibilidade que o ser humano encontrou de se imortalizar até hoje, através dos legados. Dependemos das gerações futuras para alimentar esse ego que se pretende manter vivo além do corpo. Para o acadêmico ambicioso, o presente não basta, há que lançar seu nome ao futuro. Na verdade, nem acho que isso seja exclusividade desses seres, mas que a carapaça lhes cabe bem, acho que cabe.

Já dentro da madrugada, chegou a hora do repouso...
E essa foi mais uma noite de sexta-feira na emergência de um hospital da periferia do Distrito Federal.     


(Baseado em fatos reais)

2 comentários:

  1. Muito boa essa crônica.
    Quem diria que de um plantão tumultuado haveria inspiração para uma belo texto. Muito criativo!
    Achei interessante a maneira como seu colega M abordou esse assunto! hehehe

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  2. Obrigada Moisés!
    E meu colega M é mesmo divertido. hehe

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